terça-feira, 29 de novembro de 2016

COR(AÇÃO)


Partilho os meus dias com um daltónico: “Rita! Venha cá. Que cor é esta?”. O meu colega chama por mim várias vezes para que o ajude na escolha das cores dos gráficos, do layout de uma apresentação ou na escolha de um casaco a condizer com outra peça da qual também não distingue a cor.
Nunca tinha privado com um daltónico e devo dizer que é muito difícil por-nos nos sapatos da outra pessoa, e tentar perceber como vêem o mundo. As cores assumem um papel prático na nossa vida e estamos tão habituados a olhar para elas de forma categórica que não conseguimos imaginar como seria se as trocássemos umas com as outras. Mas... e se as trocássemos umas com as outras no caderno?

O desafio do último fim de semana não era novo. E por isso mesmo, estava tão empolgada. Tinha conhecido a Celia Burgos, em Torres Vedras, num fim-de-semana de alerta amarelo: dois dias de vento e chuva intensa que acalmou na tarde em que a esta sketcher de Sevilha veio partilhar connosco como usava a cor nos seus desenhos.
Nunca me permito maldizer o estado do tempo. Herança de outras andanças em que se acendiam fogueiras à chuva, o chapéu-de-chuva era proibido, um impermeável e umas botas Elite - desculpem a publicidade mas quando eu era Guia não havia milhares de opções a preços razoáveis capazes de salvar uns pés depois de 30km - eram o material necessário e suficiente. Outra razão é viver muito de perto as privações de água dos agricultores do sul do país e achar um egoísmo as queixinhas dos mais urbanos acerca da chuva.
Este fim de semana foi a excepção. Alienei a app da meteorologia, não queria acreditar no que os meus olhos viam: chuva no sábado de manhã. E eu queria ir lá para fora desenhar. Não podia ser. Bom, fui na mesma: cores quentes - amarelo, laranja e vermelho -  e cores frias – violeta, azul, ciano e lilás – para colorir as emoções. As cores reais não tinham importância nenhuma. Árvores verdes, paredes cinzentas, edificios azuis, dependia...

Que me perdoem as células da retina responsáveis pelo reconhecimento das cores(cones)mas desta vez a orgão responsável por essa função foi mesmo o coração <3

domingo, 30 de outubro de 2016

Natureza Discreta


Nunca tinha estado na Praia do Medão – mais conhecida por Supertubos – sem o intuito de assistir às provas do WCT. Há uns dias, aconteceu.
Na verdade, não estou a contar bem a história... o objetivo era desenhar o campeonato: os espectadores na areia molhada, a massa humana que se desloca de forma sincronizada quando os surfistas saem da água, o areal repleto numa altura do ano em que já não se faz praia.

Acontece que um campeonato de surf não se coaduna com uma natureza discreta. É necessário que estejam reunidas as condições meteorológicas e geofísicas para que a expressão dos elementos naturais sirva de palco aos tube riders. Na passada sexta-feira não aconteceu.

Que bom que foi observar, pela primeira vez, as dunas da Praia do Medão, os cactos complexos, o areal quase vazio.

Um observador não exige praticamente nada da natureza.

Quem foi, nesse dia, ‘ao engano’ para ver os melhores do mundo a dançar nas ondas, encontrou um conjunto de pessoas de cadernos nas mãos, algumas de costas para o mar.
A beleza do subtil parece enorme quando olhamos melhor... e este furgão parece que está a voar porque eu não sei desenhar carros em geral, e rodas em particular.

 


 
 

 

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Feliz Ano Novo


Não dá jeito nenhum que a passagem de ano se faça no mês de Dezembro. As atenções são divididas com o Natal e há uma certa inércia própria do Inverno.

Setembro parece ser a altura ideal para recomeçar. A luz é maravilhosa.  A renovação celular, que teve lugar ao sol e nas ondas das estâncias balneares, funcionou como preparação para o regresso.

Faz um ano, no dia 19 de Setembro, que pela 1ª vez me encontrei com os USkP. Um bocadinho a medo, apareci nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian para celebrar e desenhar o Dia das Aves.

Quase um ano volvido, voltamos a encontrar-nos no Centro Interpretativo Gonçalo Ribeiro Telles, para desenhar a Matéria das Coisas. Este é o melhor regresso que se pode ter, a melhor festa de ano novo.

As resoluções já tomaram o seu lugar na lista. Há uma que vou partilhar: a partir de agora os desenhos publicados serão digitalizados em vez de fotografados.

Desejo a todos um Feliz Ano Novo (Set 2016-Ago2017) e um Bom Regresso.


 



terça-feira, 19 de julho de 2016

Girl Power


Quem passeia pela Nazaré não pode ficar indiferente à presença das suas mulheres. Podemos vê-las trajadas na venda de artesanato, frutos secos, peixe seco ou com umas tabuletas coloridas a propor alojamento local.

É impossível não perceber o poder do sexo feminino naquela terra. No passado, esse poder era ainda mais marcado. Antes da modernização dos portos, a mulher nazarena era a gestora financeira, comercial e logística da comunidade. As suas actividades, paralelas à pesca, permitiam mitigar o risco da incerteza de uma vida dependente do mar. Todo o circuito de comercialização estava entregue as estas “managers”.

No último fim de semana, ao passear pela marginal - nome dado ao passeio junto à praia – dei por mim a pensar na riqueza etnográfica desta sociedade. Existem teses, artigos, reflexões espantosas sobre estas mulheres. Se quiserem saber mais, recomendo o seguinte artigo O Papel das Mulheres da Nazaré na Economia Haliêutica.

E há mais! Embora não tenha encontrado qualquer referência ao facto, a mim ninguém me tira da ideia que o mixed print nasceu na Nazaré.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Molduras


Este sábado, houve encontro dos UskP na Quinta da Fidalga, no Seixal. Um lugar inesperado com jardins, pomares, fontes, lagos. Um local histórico que já foi uma propriedade agrícola e de recreio, fundada no sec. XV.
Recentemente foi inaugurado, no interior da Quinta da Fidalga, o Museu-Oficina de Artes Manuel Cargaleiro onde se pode ver uma colecção de azulejos do artista, que figuram em diferentes obras públicas em Portugal e no estrangeiro. O edifício é da autoria do arquitecto Álvaro Siza Vieira. Foi inevitável lembrar a Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, onde as janelas são molduras de quadros perfeitos. O mesmo acontece neste edifício. O difícil mesmo é escolher as nossas molduras, onde pomos o limite para o enquadramento que funciona.

Dos muitos elementos passíveis de serem desenhados e “emoldurados”, a figura humana é uma tentação. Principalmente quando se trata de alguém lindo e expressivo. Eu sei que a Celeste é muitas vezes “raptada” para figurar nos cadernos da rapaziada. Há muito que eu também a queria “raptar”. Sábado foi o meu dia de me camuflar, no meio do jardim, a olhar para a Celeste.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

The end of the world


É preciso ter paciência para o vento e dias frios mesmo em Agosto. Se gostam do Algarve da água quente e das noites glamorosas à beira das marinas, esqueçam. Se adoram ter o vosso carro super impecável e não gramam acessos mais ou menos, não é o melhor destino. Também não tem parques aquáticos para ir dar peixe às focas. Aqui vai o Guia de Sagres by Sleeping Bag.

Quando ir

Junho e Setembro são, de longe, os melhores meses.

Como ir

De carro, seja qual for o ponto do país. Uma vez, quando tinha 15 anos resolvi ir de camioneta, de Lisboa, e demorei umas 10 horas. Se optarem por ir de camioneta, o melhor é o expresso até Lagos e depois logo se vê como chegam a Sagres.

Onde ficar

Há uns 10 anos dava para ir sem nada marcado e depois alguma senhora nos alugava um quarto onde o Goofy ficava a dormir às escondidas. Hoje em dia, é o JP que trata de tudo. Quando aqui chegamos há uma casa à nossa espera. Obrigada JP.

Onde comer

Ora bem, não quero ser injusta pelo que vou seleccionar um restaurante que podia estar numa capital europeia, mas está em Sagres: Mum's. Experimentem o Cappuccino de Bacalhau. Importante: reservar mesa.

Onde surfar

À porta da surf shop Surfers Lab (depois do Intermarché, do lado esquerdo, sentido Vila do Bispo - Sagres) há um um quadro com o report diário das condições tanto da costa sul como costa oeste.

Sunsets sessions

Sim, claro. Escolham umas das falésias e partilhem umas minis ou uma garrafa de vinho.


 

sábado, 4 de junho de 2016

Não se mexa na marginal

Gosto de correr no paredão. Ao fim da tarde, iPod numa rádio para adolescentes onde sou tratada por tu e convidada para todas as festas do caloiro. Não corro assim tão rápido mas comecei a ter pena de não ter tempo para ficar a olhar para os pescadores, para a luz que vai mudando as cores do Bugio, do céu, do mar e do que se vê do outro lado.

Hoje, foi dia de não correr. Escolhi a curva que mais gosto, a praia de conveniência nos dias que não apetece pegar no carro.
Encontrei conhecidos e desconhecidos, curiosos pelos cadernos manchados. Técnica? Não sei, não tenho.
Já de mochila às costas, de volta a casa, passa um desconhecido que não nos oferece flores mas que sabe o que uma urban sketcher gosta: “Bons desenhos, miúdas!”


 

sábado, 28 de maio de 2016

O cacilheiro cor de laranja

Quando o vi ao longe, decidi que queria prendê-lo no meu caderno. A forma como namorava o Tejo, a espuma suave, a proa arrebitada.

Sentei-me na esperança que ele passasse à minha frente. Que fizesse a melhor pose e me piscasse o olho.

Então?

Afinal, o cacilheiro cor de laranja ía noutra direcção...

 

sábado, 21 de maio de 2016

Running for the Unknown


Esta semana voltei aos meus treinos. Não posso dizer que desconhecia as consequências de fazer infinitas pranchas, agachamentos, saltos a pés juntos e tantos outros exercícios que só resultam se eu não comer chocolates. Voltei ao sitío onde comecei: as imediações da Fundação Champalimaud. A primeira vez que me entreguei aos treinos demoníacos da L ainda não desenhava. Nem queiram saber a diferença. Por cada sprint pensava: tenho de vir desenhar para aqui.

E como não tem graça nehuma ser feliz sozinha, convoquei alguém muito talentoso para desenhar comigo. Lá fomos nós, cheias da luz daqueles fins de tarde que só o Tejo nos devolve.

Quando prestamos atenção descobrimos que afinal aquele sítio, para onde já olhámos tantas vezes, nos é totalmente desconhecido (incluído o facto de eu não aprender a montar carimbos).

 

segunda-feira, 9 de maio de 2016

BE BRAVE

Pôr gasóleo, levar o carro à inspecção, pôr água no depósito, ver o ar dos pneus. Qualquer tarefa que envolva oficinas ou abrir o capô causa-me uma enorme ansiedade. Quando desenho também fujo dos carros. As rodas nunca cabem, os guarda-lamas ficam tortos. Nenhum carro desenhado por mim teria qualquer hipótese de se fazer à estrada.

Desenhar o que nos mete medo. Be Brave.
Este fim de semana o desafio tinha uma dimensão ainda maior. Desenhar para homenagear alguém que foi embora para sempre. Alguém que adorava desenhar carros.

Este desenho é para ele: Florian Afflerbach.

domingo, 1 de maio de 2016

Parece a Dilma


Hoje o almoço de família foi como se quer: horários cumpridos e apenas um copo entornado.  A mãe não teve de fazer o almoço de domingo mas teve de pousar para mim. Aposto que foi mais difícil do que cozinhar para nós todos.

Desenho terminado e o coraçãozinho de 13 anos da minha sobrinha, sempre ao pé da boca, profere as seguintes palavras: “Tia, parece a Dilma”. A Dilma? Nada a ver. Só tem uma coisa em comum com ela: é uma querida.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Vieste a Abrantes só pela parte da manhã?


A ida a Abrantes já estava combinada há meses. Dia 23 de Abril, um encontro de dia inteiro com almoço. A possibilidade de ver a exposição de cadernos de viagens. Desenhar por Abrantes, comer tigeladas e rever uma cidade aonde não ia há mais de 15 anos. Curiosamente a última vez que lá estive, dormi num sleeping bag. Era Guia de Portugal e o acampamento de Natal, no Sardoal, contemplava um ‘raid’ até Abrantes. A maior molha de sempre. A Santa Casa da Misericórdia de Abrantes secou-nos as roupas e deu-nos o jantar. Dormimos na sede dos escuteiros, precisamente, nos nossos sleeping bags. Priceless!
Este fim de semana, os eventos paralelos aos desenhos apenas deixaram livre a manhã de sábado.  “Vieste a Abrantes só pela parte da manhã?”. Sim. Urban Sketchers Portugal Forever <3

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Eu não via os faróis


Três semanas depois daquele dia  (já sei que foi no dia 2 de Maio de 2015) no Jardim Botânico, visitei a ilha de Menorca. O meu estado de graça contemplativo permitiu a descoberta de um tipo de edifícios que sempre existiram por aí, mas não suscitavam na minha pessoa qualquer interesse especial. Os faróis.

No último domingo, o encontro dos Urban Sketchers teve lugar na Casa de Santa Maria, em Cascais. Assim que cheguei ao terraço escolhi o lugar de onde queria desenhar o Farol de Santa Marta. Não era por serem pequenos que eu não os via.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Desenhar em cadernos


Lembro-me perfeitamente do dia em que decidi começar a desenhar em cadernos. O diário gráfico tem destas coisas. Abre-se o caderno e as memórias do desenho assaltam-nos sem dó nem piedade. Lembramo-nos da temperatura desse dia, com quem estávamos ou se desenhámos de pé ou sentados. O gosto pela contemplação chegou num sábado de manhã, em 2015, no Jardim Botânico do Museu Nacional de História Natural e da Ciência. Não era o primeiro dia que desenhava no Jardim Botânico, mas foi com este desenho que se fez luz. Um desenho de luz e sombra. Só não consigo dizer o dia exato porque, como uma boa rookie, não pus a data no desenho.